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Neste post continuarei a abordar questões importantes que influenciam e determinam o desenvolvimento emocional. Para quem não leu o post anterior, acessar desenvolvimento emocional – Parte 1. Segue algumas manifestações de reações de comportamentos nas crianças advindas dos desencontros do ambiente:

Agressividade

Na criança isso pode ocorrer em excesso quando ela apresenta um comportamento considerado como “birra” ou agressivo e os adultos não compreendem que ela está se manifestando ao ambiente e acabam somente punindo ou rechachando seu comportamento. Isso faz com que a criança reaja novamentee com o mesmo comportamento. Pais muito nervosos, que brigam constantemente na frente dos filhos, que acabam se agredindo mesmo que só verbalmente, costumam se espantar quando seus filhos apresentam comportamentos semelhantes e não admitem que tenham a mesma reação. A criança que apanha ou fica de castigo em situações assim sente-se triste, desconsiderada.

Para ela, a experiência é de desencontro ao que ela estava tentando comunicar. Seu comportamento agressivo, desafiador, nada mais é do que uma tentativa de falar aos pais o quanto ela está sofrendo com tantas brigas ou pelo clima tenso de ambos ou de um dos progenitores ou por ela não sentir-se compreendida, seja por execesso ou falta de limites. Temos sempre que lembrar que as crianças possuem poucos recursos intelectuais e emocionais para se comunicarem. Seu repertório é pequeno e compõe basicamente choro, agressividade, negação, apatia, irritação, agitação. Nos casos mais graves verificamos ansiedade, distúrbios acentuados comportamentais, dificuldades escolares importantes e etc.

Os comportamentos agressivos nas crianças não são sempre reflexos dos cuidadores. Pode haver algum outro distúrbio (ver post TDHA), mas na grande maioria dos casos há uma correlação significativa entre a maneira como os pais se dirigem à criança e ao comportamento apresentado por esta.

Falta de atenção ou mau desempenho escolar

Uma criança desatenta freqüentemente ou que começa a ir mal na escola pode estar sinalizando sofrimento frente ao ambiente familiar ou mesmo escolar. Recomendo aos pais estarem atentos e procurar entender o que está acontecendo, seja em casa ou em outros locais. Caso não consigam respostas, procurem ajuda profissional qualificada.

Atraso no desenvolvimento emocional, desajustes frente às regras sociais, entre outras

Com o bom desenvolvimento emocional as regras são incorporadas facilmente. A criança vai aprendendo com os pais o que é o certo ou não, o que ela pode ou não fazer. Excesso de regras ou faltas são prejudiciais.

Antigamente o autoritarismo e a hierarquia muito incisiva não davam margens a questionamentos. A criança e mesmo os adultos eram obrigados a engolir e pronto. As ciências como psicologia e medicina estudaram as conseqüências nocivas no físico e no psicológico deste tipo de abordagem. Dentre elas encontram-se medo de questionar, embotamento da personalidade, timidez, reações agressivas ou apáticas, atraso no desenvolvimento emocional, dificuldade de encaixe no mundo e etc. Portanto um ambiente rígido ou permicivo em excesso pode afetar negativamente o desenvolvimento emocional da criança. Alguns pais tendem a fazerem-no, se assim receberam de seus pais, só que está maneira pode não ser a melhor solução para aquela criança.

O que uma criança mais precisa é sentir-se amada, compreendida, reconhecida , valorizada, amparada e cuidada, seja com conversas, afetos, brincadeiras, limites claros e justos, ou seja, acertividade nos cuidados levando em conta suas necessidades físicas e emocionais. Se isto não corre vemos adultos frustrados, com raiva de todos e do mundo, com alto grau de sofrimento emocional.

A importância da comunicação adequada

Em geral, os pais tendem a pensar que a educação dos filhos acontece essencialmente através das palavras, ou seja, da comunicação verbal. O clima presente no ambiente, mesmo quando escondido ou não verbalizado, é sentido pela criança e também por todos nós. Basta prestarmos atenção. E dependendo do clima, há reação por parte da criança ou mesmo dos adultos.

A educação ocorre principalmente nos modelos de comportamento que oferecemos às crianças, através das nossas atitudes. A atitude, em geral, é a melhor forma de validarmos nossas idéias, sejam elas positivas ou negativas. A comunicação verbal e o diálogo são de extrema importância, mas não a única e nem principal forma de se educar um filho ou de se comunicar em qualquer outra relação. A disponibilidade de acolher e estar presente com o outro para poder melhor compreende-lo é fundamental nesse processo de “boa comunicação”. Para isso precisamos nos conhecer, inclusive nossas limitações, para melhorarmos a relação conosco e com os outros.

Exemplo clínico

Uma criança que recebi em meu consultório disse que seus pais eram muito ocupados e que não tinham tempo para ela. O pai numa conversa comigo se mostrou indignado com o fato da filha ter reclamado por ele ter passado o tempo todo de sua apresentação conversando ao telefone. O pai disse:” o que mais ela queria? Eu estava lá”. Será mesmo que estava? Para a criança o fato do pai ter ficado o tempo todo ao telefone significou que o pai não estava conectado com ela. Ele estava de corpo, mas não com presença de entrega à relação, que naquele momento a criança necessitava.

Cuidados na comunicação

As palavras têm certamente grande poder. Assim como podem gerar alívio, conforto e entendimento, podem abrir feridas quando usadas levianamente, como em ironias, apelidos ou assédios. Todas as formas de estigma geram muito sofrimento. Devemos ter muito cuidado com as crianças e adolescentes para não atingi-los em sua essência com piadas e esteriótipos “agressivos” mesmo que por brincadeira, porque ambos se encontram em desenvolvimento. Esses rótulos marcam profundamente na noção de identidade.

Quando a punição é necessária

Não estou dizendo que os pais devam aceitar tudo ou não punir. Um bom exemplo de intervenção seria controlar a criança, acalmando-a ou mesmo colocando-a de castigo, de preferência perto de algum adulto se esta for pequena. Estar perto é necessário porque uma criança pequena ainda não tem condições emocionais desenvolvidas para lidar com o medo frente ao que ela fez e frente a possibilidade de perder o amor dos pais ou daqueles a quem ela “causou algum dano”. Assim também deve ocorrer quando os pais percebem que a criança fica muito aflita ao ficar sozinha, mesmo ela já tendo mais idade.

Na seqüência de uma punição, que não deve chegar a uma agressão física e nem verbal, o cuidador deve conversar, explicar os motivos do castigo e tentar entender o que aconteceu com a criança, buscando relacionar o comportamento da criança com seu próprio ou com situações de estresse ou conflito que estejam acontecendo na família. Pois as crianças, em geral, são muitos sensíveis e reagem a tudo o que elas percebem que não está em sintonia a um ambiente tranqüilizador e equilibrado.

Agora imagine um adulto que teve várias experiências de não compreensão por parte dos pais, dos professores (na escola era estigmatizado por ser bagunceiro ou agressivo ou qualquer outro adjetivo, sendo sempre tachado e punido inadequadamente) ou no trabalho visto como “o problema, o difícil”. Ou que tenha sido cuidado por pessoas nervosas, aflitas, ansiosas, emocionalmente ausentes ou depressivas. Este adulto encontra-se agora num relacionamento com outro adulto que também pode ter tido dificuldades semelhantes ou foi criado de forma mais racional e dura. Provavelmente irão se desentender porque ambos estarão presos nas suas experiências do passado, misturando-as com as do presente. Por isso dizemos que o corpo emocional tem uma força avassaladora, pois pode fazer o indivíduo se distanciar da realidade por viver em um tempo que não lhe pertence no agora, como o passado. E os filhos não escapam dessa teia que os pais vivem.

Cada vez que nos deparamos com uma situação que nos gera sofrimento, abre-se uma “porta” interna e todas as mágoas, raiva, dores, frustrações, crenças que estavam trancadas num quartinho bem lá no fundo, quase no sótão da mente, vêm à tona e se misturam com o fato do presente. Por isso, muitas vezes a comunicação entre casais e/ou pais e filhos também fica comprometida.

Vou terminar com uma frase que gosto e acredito ser muito elucidativa: “Olho e sou visto, logo existo”. (D. Winnicott, pediatra e psicanalista).

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286
[email protected]

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