Germany, Bavaria, Munich, Parents kissing boy (2-3 Years) in living room

Neste post continuarei a correlacionar os eventos vividos com o desenvolvimento emocional, mas antes quero abordar um assunto que merece atenção: a terceirização dos cuidados.

Terceirização dos cuidados e da educação – mini executivos

De fato, criar um filho e oferecer a ele condições para um pleno desenvolvimento emocional dá muito trabalho. Por mais caro que seja e repleto de dificuldades logísticas, muitos pais acabam por delegar a educação de seus filhos a outras pessoas, o que vem sido denominado terceirização da educação. Acredita-se que o conceito de felicidade para um filho está no quanto podemos provê-lo materialmente: se podemos ter a babá, se pagamos a escola cara, de preferência biligue e se oferecemos experiências extra curriculares que habilitem a criança a ser um bom profissional no futuro.

O que um filho realmente precisa?

Os pais exercem um papel crucial na vida de seus filhos. São eles nossos modelos de como ser, agir, pensar e sentir, nossos ídolos e heróis. E podem se transformar nos maiores vilões se não puderem estar em presença e disponibilidade emocional para seus filhos.

Filhos precisam de presença e tempo de qualidade.

Tem aumentado consideravelmente o número de crianças diagnosticadas com estresse, boa parte delas sendo medicadas para combater as doenças decorrentes. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apontou que, entre 2009 e 2011, o consumo do metilfenidato, conhecido como Ritalina e Concerta, medicamentos comercializados no Brasil, aumentou 75% entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos. A droga é usada para combater uma patologia chamada TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. (ver post TDHA).

Uma criança cujo dia começa às 7h e termina às 20h ou mais pode ficar estressada e apresentar como sintoma uma agitação motora e ou agressividade excessiva. Supondo que esta criança vá ao médico e seja medicada devido ao diagnóstico de hiperatividade e nada mude na sua rotina ou ambiente de casa, pouco provável o quadro comportamental mudar, pois o que está deixando a criança agita é o excesso de atividade. A criança também precisa de tempo para não fazer nada para conseguir elaborar e processar todas as experiências vividas. Caso contrário ela entra num ciclo frenético de fazer isso acarretará, no mínimo, em ansiedade.

O discernimento é uma peça chave na composição da rotina da criança e em sua educação. Temos que ter discernimento até na busca de profissionais capacitados, sejam eles pediatras, psicoterapeutas, babás e até mesmo na escolha da escola adequada às necessidades cognitivas e emocionais da criança. A maioria dos sintomas nas crianças ocorrem por questões familiares, por desequilíbrio na rotina e nas relações afetivas que os pais estabelecem com elas como limites rígidos demais, falta de limites, não compreensão, julgamentos esteriotipados e etc.

É muito importante ressaltar que, em geral, os pais buscam dar o seu melhor mas isso pode não ser o suficiente emocionalmente para a criança. Na maioria dos casos, os pais tentam ser assertivos. Não falham porque querem prejudicar seus filhos e se o fazem, algo muito grave pode estar acontecendo, como uma doença psiquiátrica. Este pode ser um conceito paradoxal, pois mesmo que aparentemente a terceirezação indique ausência de participação dos pais, pode ser que eles estejam dando o máximo que consigam neste sentido. Principalmente se ambos os pais trabalharem fora.

Danos a longo prazo

Ainda iremos observar os danos nas crianças submetidas à terceirização. Muitos estudos deverão ocorrer. Porém, com o material de observação clínica, acompanhamento psicológico e discussões realizadas por educadores, psicopedagogos, psicólogos e terapeutas em geral, vemos uma tendência exagerada dos pais em colocar a responsabilidade da criação e acompanhamento do desenvolvimento total da criança nos contratados.

Por mais que uma babá seja qualificada, a criança precisa do olhar atento e participativo dos pais. A escola cuida de milhares de crianças. Numa sala de aula existem dezenas de crianças. Como uma professora irá conseguir oferecer tudo o que uma criança precisa quando tem que olhar para mais de 10?

Existem pais presentes de corpo, mas sem presença de alma. Existem pais que passam pouco tempo com seus filhos, mas aproveitam com muita qualidade. Isso engloba inclusive saber dar limites e não somente compensar a falta fazendo todos os desejos das crianças. É muito importante que os pais possam oferecer um cuidado emocional adequado à criança.

Germany, Bavaria, Munich, Parents reading book with son (2-3 Years) in living room

Um bebê até 2 anos de idade ainda não está pronto para lidar com a ausência da mãe. Para ele a mãe desaparece e isso pode trazer angústias muito intensa, as quais o bebê não sabe identificar e nem fazer passar. Escuto muitos relatos de pais que viajam por mais de 15 dias e deixam seus bebês aos cuidados das babás. Isso vai gerar um dano no desenvolvimento emocioanl deste ser.

Outro exemplo é pais que acabam fazendo tudo o que a criança quer ou por falta de paciência em construir limites ou por sentirem-se culpados por trabalharem o dia inteiro. Isso também causa danos emocionais nas crianças. Uma criança que cresce sem limites tende a apresentar comportamentos delinquenciais e anti sociais na adolescência.

O papel do tempo na formação de um ser

A noção de tempo, passado-presente-futuro, é desenvolvida pelas experiências que temos quando pequenos. O ritmo que a mãe imprime nos cuidados, respeitando o tempo do bebê, vai possibilitando o desenvolvimento da percepção de tempo. Exemplo: bebê que tem fome a cada duas horas e a mãe, mesmo recebendo a orientação de alimentar a cada 3 horas, percebe que seu filho precisa de um outro tempo e o respeita.

Se fomos atropelados no nosso tempo quando pequenos, ou seja, quando “temos que” nos apressar, temos que comer rápido ou temos que engolir algo que nos é muito desagradável, temos que funcionar no ritmo estressado dos adultos, temos que agir conforme é esperado, isso normalmente acontece de forma não natural ao processo da criança. Esta se tornará um adulto ansioso, apressado, que atropela seu ritmo e seu tempo interno. Provavelmente fará e exigirá o mesmo de seus filhos.

Todos precisamos pagar as contas no fim do mês. Mas nossas escolhas interferem muito em como vamos viver a vida. Podemos passar por ela como máquinas que tem que produzir e enriquecer a qualquer custo (doenças podem ser conseqüências de abusos que imprimimos em nosso corpo, ritmo etc) ou podemos encontrar outros caminhos, os quais também podem trazer bons ganhos financeiros sem tanto desperdício de energia interna, ou seja, sem tanto desgaste emocional e em sintonia com o que faz sentido com nosso ser interno. Só que para isso precisamos compreender nosso tempo, ritmo interno, nossas reais aptidões, emoções, sentimentos, escolhas, crenças e etc.

Podemos nos adaptar a inúmeras situações, o que é ótimo em termos de sobrevivência da espécie, pois sem essa adaptação não conseguiríamos suportar e superar obstáculos grandes ao nosso desenvolvimento físico e emocional. Em termos da nossa plena existência e felicidade, pode ser catastrófica essa grande adaptação, principalmente se estivermos nos atropelando, nos obrigando a funcionar de maneira oposta ou muito distante do nosso jeito natural de ser. Cada um tem um ritmo, um perfil e isto deve ser muito valorizado e respeitado.

Quando somos adultos realmente de nada vai adiantar culpar os pais por todas as mazelas e dificuldades que enfrentamos na vida, pela nossa falta de tempo e ansiedade no momento presente. Sabemos que muitas destas dificuldades são provenientes dos desencontros passados. O que precisamos fazer é cuidar e sanar essas dores para dar espaço para novas experiências. Caso contrário, podemos ficar presos no ciclo vicioso do passado e sentir que não conseguimos existir como gostaríamos. Novamente o sofrimento aparece e voltamos a raiva aos “culpados”.

É importante que os filhos machucados perdoem e busquem a cura de suas dores, assim como os pais de crianças pequenas devem ficar atentos se estão oferecendo o que a criança realmente necessita para ter seu desenvolvimento emocional de forma adequada e saudável.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286
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