amor-verdadeiro

Aprendemos desde cedo sobre o amor porque nos ensinam que devemos amar nossos pais, irmãos, colegas e o próximo. Vamos descobrindo que algumas pessoas são mais importantes para nós do que outras e nem sempre é fácil lidar com essa descoberta, pois a culpa é inserida em quase tudo o que fazemos, sentimos ou pensamos desde que nascemos.

Para que o amor ocorra é preciso que, no curso do desenvolvimento emocional, alguns sentimentos possam ser integrados, como por exemplo a agressividade e o ódio. O amor contém bondade, mas também contém ódio.
É muito comum crianças pequenas sentirem raiva ou até mesmo ódio de seus pais. Se estes toleram e não revidam, a criança tem a chance de aprender a integrar o ódio no amor e aí sim pode alcançar a experiência de um amor verdadeiro por si e pelo outro.

Um amor aprendido somente intelectualmente acaba se tornando um falso amor. E o ódio pode ser experimentado de uma forma mais nociva e até mesmo patológica.

Em qualquer relação sentimos amor e sentimos raiva. Mesmo quando sentimos raiva, após um período de tempo, ela passa. Imaginem uma criança dizendo a seus pais que os odeia. Se estes dizem à ela que entendem esse ódio e que logo ele irá passar, estarão ajudando-a a aprender de fato a lidar com o ódio. O ódio vem por algum motivo, normalmente ligado à frustração, mas ele vai diminuindo até sumir. Agora imaginem neste mesmo contexto pais que dizem que também odeiam a criança ou que vão embora largando-a sozinha. Essa criança irá sentir muito mais ódio e não conseguirá experimentar o processo da diminuição.

Repetidas experiências desta última forma levarão esta criança a desenvolver mágoa, rancor e mais ódio.
Outro exemplo são as brigas entre irmãos, o que de fato é muito comum acontecer. Se as crianças vão aprendendo a lidar com a raiva, ciúmes, ódio conseguem desenvolver amor verdadeiro. Agora se aprendem que devem amar porque devem, isso é falso amor, pois não houve a conquista interna que permite que o verdadeiro amor aconteça.

Um outro ponto é que o amor manifestado por nós contém necessidades individuais ou ganhos secundários. Amamos porque precisamos ser amado. Praticamos o bem porque nos sentimos bem. E muitas vezes buscamos no outro ou no amor do outro o que nos faltou no passado no âmbito emocional. Também buscamos no outro a sensação de completude, de prazer que um encontro proporciona. Esse prazer nos faz sentir mais vivos, pulsantes, felizes.

Amor e paixão

A paixão é um sentimento muito forte, que nos dá a ilusão que o outro é perfeito. Na paixão podemos achar que amamos, mas de fato o amor acontecerá se nesta relação houver espaço para a frustração, raiva e desilusão no sentido de se compreender que o outro é diferente e não uma extenção do que você gostaria que ele fosse.

Muitas pessoas buscam o amor, mas se assustam quando percebem que poderão vivenciá-lo. Amar implica se doar ao outro, fazer concessões, renunciar, perder e libertar. São tarefas que exigem um certo grau de amadurecimento emocional. No amor entramos em contato com sentimentos que podem ser assustadores, como a raiva, o ódio, o ciúmes, o medo de perder a pessoa ou de perder o sonho de um amor perfeito. Ainda mais se aprendemos que é feio e errado sentir esses sentimentos. Tudo isso interferirá em como iremos vivenciar o amor: como transformador (uma experiência gratificante e de crescimento) ou como ameaça.

O amor verdadeiro, aquele que liberta, que engloba o direito de existir de cada um na relação, propicia um encontro profundo, criativo, construtivo e muito prazeroso. Dependendo do grau de envolvimento e da possibilidade de ambos sustentarem essa experiência tão poderosa e intensa, o amor pode ser um caminho para a transcendência de barreiras, medos e crenças limitadoras.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286 / 99850 9074
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Ilustração: ‘Chuva de Amor’ de Amanda Mol

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