desapego

Desapegar significa abrir mão. Parece simples, mas o desapego pode se tornar uma tarefa muito difícil, complexa e sofrida.

Os sentimentos que surgem, num ato qualquer no presente, estão intrinsicamente ligados às nossas experiências do passado. Essas, por sua vez, deixam registros em nós, mesmo que inconscientes. Desapegar pode ser vivenciado como uma perda de algo irreparável ou pode significar revovação, abertura para o novo.

A cada situação vivida esses registros são acionados. Nos informam, através de sentimentos, muitos deles extremamentes sutis, como devemos encarar e proceder frente à situação. Então, por exemplo, se uma pessoa recebeu muito pouco do universo emocional quando criança, terá um registro muito forte de falta. No presente poderá ter muita dificuldade em doar suas coisas, pois sentirá que precisa guardar para ter a sensação de preencher um vazio que sentiu no passado e que ficou registrado até hoje.

No texto passado mencionei projeção (reveja o post clicando aqui). Projetamos tudo ou praticamente tudo em todas as circunstâncias que vivemos. Nesse sentido, colocamos em nossas ações vários ingredientes (sentimentos e registros passados) e podemos ter a ilusão de que temos total consciência de nossa escolha ou conduta presente.

Coloco ilusão aqui caso não se saiba os elementos internos e emocionais que estão inseridos nos sentimentos e ações que são vividos por nós.

Desapego não significa não dar valor ou diminuir a intensidade dos sentimentos. Algumas linhas filosóficas trabalham o conceito do desapego como abrir mão do sentir. Na psicanálise significa o oposto. Desapegar irá evocar sentimentos, alguns bastante difíceis dependendo das experiências do passado, mas também poderá vir a ser uma grande oportunidade de abertura para o novo.

Racionalmente parece fácil e até muito simples. Porém o mundo emocional funciona sob uma outra ordem. Quantas coisas sabemos racionalmente e não conseguimos colocar em prática ou até sustentar por mais tempo, quando introduzimos uma mudança? Isso ocorre por que mundo racional e mundo emocional caminham por razões muitos distintas.

Desapegar significa abrir mão do conhecido, do seguro, do que se herda dos ancestrais ou da cultura.

Desapegar é também entrar em contato com o controle ou com a perda dele. Quanto mais medo se sente da vida, mais controle será necessário. Menos desapego será praticado.

É muito difícil reconhecer que podemos estar errados ou que muitos dos conceitos que acreditamos podem não representar a verdade absoluta. Novamente reforço as nossas experiências do passado, incluindo todas as crenças recebidas e herdadas de nossa sociedade. Já escutei muitas pessoas dizerem que não mudam de opinião com muito orgulho, como se isso determinasse o caráter delas como pessoas fortes, de valor, que sabem o que pensam, como se fossem confiáveis. Na verdade isso pode ser rigidez, dificuldade de voltar atrás, de rever e repensar a si mesmo e o mundo.

Generosidade e doação

A generosidade, a entrega ao outro e a vida necessita de doação, do desapego de idéias, preconceitos e sentimentos que apontam para uma ameaça ou para a sensação de segurança. Posso enumerar diversos exemplos de justificativas que contém uma parcela grande de medo: “se ajudar todos vão querer minha ajuda, se doar vai me faltar, se mudar não saberei mais quem sou, se não for possessivo perderei a pessoa amada, se não controlar as coisas elas não sairão do jeito que espero e tudo pode desmoronar, se não trabalhar tanto não terei dinheiro, se não trabalhar assim não serei reconhecido, por que mexer na minha vida se tudo corre bem?…”

Toda vez que você se deparar com algum sentimento difícil em qualquer situação de desapego, seja de coisas materiais, de pensamentos, sentimentos, comportamentos e ações, faça uma análise de tudo o que pode estar sendo projetado do passado nessa situação presente (vá se perguntando o por que você sente dessa forma, dá onde você aprendeu a pensar ou sentir assim…). Se o sentimento for de sofrimento e realmente for muito difícil desapegar, o que quer que seja, algo muito importante emocional que faltou no passado pode estar interferindo no seu modo de funcionar e de compreender o mundo.

Vivemos num momento histórico, cultural, social em que fazer escolhas significa perder. Busca-se então aproveitamento de todos os momentos, na tentativa de dar conta de tudo, como se isso minimizasse ou extinguisse o sofrimento.

Desapegar exige amadurecimento emocional, por isso pode ser uma tarefa difícil de ser compreendida e vivenciada. Dependendo do que se está em jogo emocionalmente, pode doer e muito, principalmente se o ato do desapego representar a perda de si mesmo (valores, sentimento de existir, de possuir, de ser feliz ou outros).

Desapegar é renunciar. Mas, na renúncia também nos abrimos para o novo, para outros ganhos, para experiências mais profundas, transformadoras e muito prazerosas.

Viver superficialmente, com a sensação onipotene e ilusória de que se tem tudo, pode ser uma das experiências, a médio e longo prazo, causadora de muitos sofrimentos existênciais.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286 / 99850 9074
[email protected]

(Ilustração: Eva Uviedo para Prana Yoga Journal)

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