bem-sucedida

A cada dia a lista sobre tarefas e resultados relacionados ao conceito “bem sucedido” aumenta, trazendo para a maioria das pessoas um mal estar, caso não correspondam ao estilo de se viver construído socialmente.

É necessário ser feliz e produtivo no trabalho, ganhar bastante dinheiro, ser feliz no casamento ou estar em um relacionamento sério, ser uma pessoa extrovertida e comunicativa, repleto de amigos, fora os bens materias. Possuir um bom apartamento ou casa, ter um carro grande, novo e caro, estar com o corpo bem cuidado e aparência visual dentro dos padrões de moda vigente também são requisitos para o consenso coletivo sobre sucesso.

Com tudo isso, virou uma obrigação as crianças serem bem sucedidas na escola e em todas as atividades extras curriculares devido à crença de que somente desta forma ela estará no caminho do sucesso e estará mais preparada para enfrentar um mundo cruel e competitivo.

Vemos seres humanos, independente da idade, estressados, aflitos, ansiosos, com insônia, depressão, sentimento de fracasso e incompetência. Adultos correndo para atingir a tal meta e crianças com sintomas de hiperatividade e com dificuldade de concentração e atenção. Muitos já consomem remédios tarja preta.
Conheço altos executivos que para atingir o sucesso financeiro abriram mão de sua vida pessoal e familiar. Apresentam muitos sintomas de estresse e estão com a saúde por um fio. Alguns levam um susto e repensam seu estilo de vida, outros continuam na corrida desenfreada, ignorando todos os sinais de sofrimento tanto em si como nos demais.

É isso que queremos passar para as crianças? Não fomos criados assim com tamanha demanda de atividades e exigências e já estamos contaminados, imaginem as crianças que nem prontas estão em seu desenvolvimento emocional e já precisam lidar com tudo isso. Recebo muitas crianças em meu consultório com um sofrimento enorme devido à todas imposições e, com muita dificuldade, vou explicando aos pais a importância da criança ter um tempo calmo e livre para processar as experiências e principalmente um tempo com os mesmos onde se sinta olhada, protegida, compreendida e amada.

Criança precisa sentir o mundo calmo e tranquilo para desenvolver confiança em si

Tenho duas amigas que foram obrigadas a jogar tênis desde pequenas, participando de vários campeonatos aos finais de semana, durante mais de 20 anos. Ambas, com mais de 40 anos, relatam que sentiram sua infância e o direito de escolher roubados. Para elas, trabalharam desde cedo e hoje ambas possuem um sentimento de tristeza e certa melancolia, o que atrapalha na construção e criação de novas possibilidades na vida.

Então, o que é ser bem sucedido?

Para começar é muito importante a contrução de uma base emocional estruturada. Esta se desenvolve a partir das boas experiências de cuidados que envolvem o corpo do bebê e da criança, estímulos sensorias, cognitivos e motores de acordo com a idade dos mesmos e, principalmente, a provisão de um ambiente calmo e tranquilizador. Desta forma a sensação de felicidade e a boa relação consigo e com o mundo se estabelecem facilitando a jornada até o final. Sem isto, sentir o sucesso fica tão distante que a pessoa passará a vida buscando nas ações externas o que lhe faltou e falta no interno.

Quem teve um bom desenvolvimento emocional consegue lidar com as demandas do mundo de uma maneira mais tranquila, com menos cobrança. Também consegue cuidar de sua saúde física e emocional de forma mais eficaz. Por sentir-se confiante, constrói sua vida de acordo com suas reais necessidades e não pelas necessidades externas, as quais muitas vezes vão na contramão de sua essência.

As vezes é muito custoso e doloroso seguir um caminho da alma por não termos idéia sobre o que realmente gostamos ou buscamos ou porque corremos o risco de decepcionar àqueles que esperam de nós um bom desempenho e resultado, pautados na crença do sucesso.

A questão é que quanto mais tentarmos agradar os outros e nos forçarmos a seguir um caminho que não faz sentido com nossa essência, menos bem sucedidos seremos, mesmo que aos olhos dos outros possamos ter tudo o que se vende nas matérias de revistas. Se há muito sofrimento ou doenças constantes há um indicativo de que algo está errado.

Bem sucedido é estar no mundo de maneira mais integrada e conectada com o nosso interno, é desenvolver um senso de realização onde o dinheiro é consequência e não o fim em si.

Podemos reconstruir esse caminho, caso nos tenha faltado. Não só aprenderemos a viver de um jeito mais harmônico como conseguiremos transmitir isso aos nosso filhos, sobrinhos, alunos e crianças em geral.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286 / 99850 9074
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