Girl (12-13 Years) screaming, portrait

Com as mudanças de papéis, normas, valores, crenças, somando-se à vontade de acertarmos, de sermos diferentes e melhores do que nossos pais, ficamos muitas vezes sem os referenciais que norteavam e ajudavam na sustentação de determinadas atitudes frente aos filhos.

Antigamente todos na família sabiam qual era o seu papel e como deveriam se comportar. As tradições, muitas vezes rígidas, não davam espaço para dúvidas. Porém, abandoná-las por completo é igual a ficar perdido no meio do oceano sem mapa e bússola.

O filho que levantasse a voz para o pai, no mínimo, ficava de castigo. Hoje uma criança pode denunciar seus pais por mau trato e agressão. Os avanços no aumento dos direitos de todos nas relações, com menos abuso de poder, foram de extrema importância. Não é pela força e pelo poder que construiremos um mundo mais justo, humano e solidário. A própria ditadura deixou muitas sequelas: um povo que não tem identidade.

Buscar a identidade de família, de pai, de mãe ou de cuidador responsável é fundamental para que haja uma relação saudável entre os membros, mas abrir mão de regras importantes para a manutenção e segurança de todos é suicídio.

O maior desafio da nossa geração está em adaptar os modelos antigos e recriar novos mais eficazes. Porém, a vida não espera. Além de ter que dar conta do trabalho, da organização da casa, de eventos sociais, do casamento, de atividades extras curriculares para os filhos, os pais se deparam todos os dias com crianças que solicitam o tempo inteiro sua atenção. Os filhos não podem esperar os pais se encontrarem e por isso gritam mais ainda, eles precisam dos pais.

A agressividade é um dos pontos difíceis de serem contornados na relação pais e filhos. Sem ela não conseguiríamos sobreviver no mundo, pois sua função é nos dar a força necessária para abrirmos novos caminhos, superarmos obstáculos, até mesmo levantar da cama todos os dias. A agressividade é uma força motora vital. Mas, quando um filho utiliza-a com muita frequência e intensidade surgem diversas questões: O que é que está acontecendo? Será que há algo genético? Se for comportamental, como agir? Qual a causa deste comportamento?

O medo e a busca por segurança

A criança precisa se sentir segura no mundo. Isto significa sentir que seus pais estão presentes para cuidar de seu desenvolvimento no geral. O que a maioria das pessoas não leva em consideração são os aspectos emocionais, até porque eles não são palpáveis. Quando uma criança ou adolescente está gritando em demasia ou apresentando reações agressivas nesse sentido ou comportamentos sem limites, há algo que não está em sintonia com a própria criança ou na relação com a família.

É importante os pais perceberem como eles agem sob pressão, como conversam entre si nesses momentos, pois os filhos usarão os mesmos modelos em suas vidas. Suprir a ausência com presentes, viagens, excelentes roupas ou dizer sim a tudo não compensa a falta emocional. O diálogo é fundamental para qualquer relação prosperar. Limites excessivos ou falta deles levam os filhos a apresentarem maior agressividade, seja para contestar esses limites ou para pedi-los, pois sem limite a criança se sente completamente perdida no mundo. Isso é muito assustador e extremamente nocivo para seu desenvolvimento emocional.

Como hoje praticamente tudo funciona pela competição, os mais jovens estão sendo pressionados a se tornarem adultos antes do tempo. Num primeiro momento os resultados podem parecer positivos, mas a longo prazo os danos serão grandes. Teremos adultos estressados, desconfiados de todos e de si.

Atrás de toda agressividade excessiva esconde-se o medo. Medo de crescer, medo de dar conta da vida, das mudanças, de não estar à altura dos desejos dos pais e da sociedade, medo por não sentir que há um local de suporte ou sustentação para seus conflitos e turbulências emocionais (no caso de famílias ausentes em presença emocional e limites).

A criança também se constitui ao longo da vida através das referências, por isso testam tanto os pais. Aparentemente parece até provocação, mas não é. Sem isso elas ficam perdidas. A criança precisa se certificar a todo instante de que há adultos cuidando dela, observando suas atitudes e a protegendo de si mesma. Uma criança que sente que tem mais poder que seus pais, literalmente, fica apavorada, pois para a criança o que ela sente se materializará, então se estiver com raiva dos pais vai matá-los de fato. Se os pais ficam assustados e demonstram isso através de mágoas ou reprimem com broncas sem compreender o sentido, estão afirmando que ela é perigosa. Se não fazem nada para impedir estão deixando a criança solta e ela passa a acreditar que tem um imenso poder destrutivo e, com isso, vai testa-lo cada vez mais as relações, na tentativa de descobrir que não é verdade. Porém, como não vai encontrar ninguém dizendo o contrário, vai ficar mais aflita e agressiva. Vira um círculo vicioso. (Ver filme “Precisamos falar sobre Kevin”)

Limites abusivos, sem propósito para a criança e/ou adolescente ou falta de limites tolhem o potencial criativo dos mesmos e cria seres humanos apavorados que para sobreviverem desenvolvem uma proteção através de comportamentos agressivos e delinquenciais.

Adolescência

Na adolescência é comum a agressividade tanto no processo de desenvolvimento tanto pela sensação de se apropriar da sua vida sem a interferência dos pais. É uma fase delicada, na qual ambos, pais e filhos podem sofrer. Os pais por se sentirem rejeitados e atacados e os filhos por não se sentirem seguros o suficiente em relação à sua identidade.

É um processo de mudança, tanto interna quanto externa e isso assusta, tornando, naturalmente o adolescente mais irritado. Outro fator natural é a necessidade de negar os pais para se auto afirmar. Esse processo é importante para o desenvolvimento de uma autoestima elevada. Se os pais recebem esses comportamentos como ataque pessoal e reagem com agressividade, acabam por piorar a situação e a relação entre ambos fica cada vez mais prejudicada.

No caso de adolescentes que abusam de drogas ou que estão envolvidos em atos delinquentes, é importante sim a intervenção mais enérgica dos pais para colocação de limites e cuidados, mas nunca esquecendo de tentar compreender o que levou o adolescente a agir dessa maneira. Tanto na criança quanto nos adolescentes, os comportamentos são sintomas. E quase todos referem-se ao ambiente em que vivem e são criados. É fundamental buscar a origem emocional, seja por questões internas relativas as mudanças, autoestima, receios, medos ou por reações frente à dinâmica familiar. Pois, só assim é possível cuidar, tanto no sentido de amenizar os sofrimentos como de evitar acidentes maiores.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
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