Father carrying daughter piggyback

Neste post e nos próximos irei abordar o desenvolvimento emocional de um ser humano desde o seu nascimento. Nossa primeira infância determina grande parte, senão a maioria, de nossos comportamentos, ações, reações e sentimentos durante a vida.

Descobrimos o mundo, interno e externo, a partir do cuidado que recebemos quando bebês. Se o ambiente (cuidador e tudo o que engloba o cuidar, como temperatura do ambiente, alimentação, clima emocional dos pais) conseguir atender as nossas necessidades primordiais e essenciais do âmbito emocional, físico e intelectual, teremos um desenvolvimento emocional mais adequado. Caso contrário, poderemos desenvolver conflitos maiores e/ou “buracos existenciais” que dificultarão nosso caminhar pela vida.

Ambiente adequado significa boa relação de empatia da mãe/cuidador com seu bebê. Mãe calma que acolhe o bebê transmitindo segurança, aconchego, conforto, amor. Para uma mãe/cuidador conseguir desempenhar bem esta função precisa de um companheiro (a) ou alguém de sua confiança que lhe dê um bom suporte emocional, prático e organizador. Por exemplo, fazer supermercado, deixar as contas em ordem, providenciar recursos que ela precisar para cuidar do bebê, não criar ambiente tumultuado, evitar discussões, transmitir sensação de segurança e ajuda.

Nossos modelos de como pensar, agir, falar, andar, vestir, sentir e compreender o mundo vêm da experiência familiar e posteriormente da social. Mas, a primeira infância (até aproximadamente 7 anos) se torna o registro e base de nossas crenças sobre o mundo e sobre nós mesmos. Sempre que nos deparamos com situações semelhantes às vividas no passado, reagiremos da forma como sentíamos naquela época.

Comportamentos hoje são um reflexo

Ao longo da vida podemos reformular muitas crenças, experiências do passado e, assim, desenvolver novos caminhos para sentir e expressar comportamentos e reações diferentes frente as situações vividas. Para isso, é preciso que haja um mínimo de consciência sobre a história de vida, familiar, conflitos, receios, medos, aflições e todas as crenças herdadas, tanto familiares como sociais.

Experiências de desencontros no início do desenvolvimento emocional deixam marcas profundas inconscientes e podem se manifestar em comportamentos futuros de não confiança no outro, na vida, no futuro. Quando um bebê não recebe os devidos cuidados, pode sentir e descobrir o mundo de maneira mais assustadora e cruel. Isso ocorre por diversas experiências de desencontros da relação cuidador/bebê, além da natureza inerente do bebê. Existem bebês mais sensíveis que sentem intensamente os conflitos ou as necessidades não atendidas, mesmo quando o cuidador se mostra bem atento à ele.

Quando nascemos, deixamos um espaço quente e seguro, o ventre materno, para chegarmos ao desconhecido mundo de fora e, aqui, criar a nossa história, suportados no início pelo apoio e cuidados dos pais. Ao longo da vida, podemos aprender a compreender e gerenciar nossas emoções, instintos, comportamentos e, principalmente, escolher, qual caminho trilhar. Mas para isto, precisamos ter suporte interno, uma fundação que é desenvolvida a partir das experiências e cuidados que recebemos desde o nosso nascimento.

Suporte interno

O suporte interno é composto de todas as ferramentas emocionais que dispomos para lidar com as situações: calma, paciência, confiança, determinação, ponderação, tranqüilidade, raciocínio e conhecimento das emoções presentes em cada circunstância que se apresenta na nossa vida.

Essa base de sustentação do nosso mundo psíquico/interno inicia-se na gestação. Gerenciar as emoções não significa sufocá-las, extinguí-las, fingir que não existem ou não dar importância. Muito pelo contrário, somente nos aproximando e realmente compreendendo o que sentimos e porque estamos envolvidos por determinadas emoções é que poderemos descobrir o que realmente precisamos.

Lembrem-se que pensamentos e emoções estão interligados, mesmo as pessoas que se julgam extremamente racionais, têm seus pensamentos afetados pelas emoções e vice-versa.

Gestação e parto

Algumas linhas da psicanálise afirmarão que já há uma vida psíquica fervilhante no bebê que cresce na barriga da mãe. Por isso, é muito importante a conexão emocional que a mãe estabelece com seu bebê ainda dentro do seu ventre. Muitas gestantes estão aderindo às práticas da Yoga que trazem enormes benefícios tanto a elas mesmas quanto aos bebês.

Além de preparar a mãe para um bom parto, fortalecendo a musculatura do corpo, desenvolvendo consciência da região pélvica e aliviando dores possíveis na gestação, a respiração profunda desenvolvida com a Yoga e a meditação neutralizam os hormônios do estresse, reduzem a ansiedade da mãe aumentando o vínculo entre mãe e bebê. A mãe que não tem restrições de saúde e pode escolher esperar o filho chegar de maneira natural, optando por um parto normal, coloca-se em sintonia com as necessidades e movimentos do bebê dando a ele força e autonomia vitais para um desenvolvimento saudável, do ponto de vista psíquico e energético, além do físico.

A sintonia da mãe com seu corpo e com o bebê é importante em todas as fases da gestação, durante o parto e nos primeiros anos de vida da criança. Esta reflexão é o que nos fará questionar se estamos no fluxo natural da vida ou entrando na onda coletiva de cesarianas marcadas sem uma prévia constatação da real necessidade. Porém, quando a cesárea torna-se necessária, o bebê também poderá ter um desenvolvimento saudável. O que terá importância crucial são os primeiros cuidados que o bebê irá receber desde o nascimento até a primeira infância e adolescência.

Saber ouvir o bebê

Normalmente os pediatras orientam às mães sobre a importância de criar um ritmo: amamentar de 3 em 3 horas, abrir a janela durante o dia para o bebê ir desenvolvendo a percepção de dia e noite e etc. Essas orientações são muito importantes e ajudam muito na organização dos pais na árdua tarefa de cuidar de um ser muito frágil, além de criar um ritmo interno no bebê. Mas alguns pais ficam inseguros, aflitos e podem se apegar demais às orientações e não perceber o que se passa com seu bebê. Por exemplo, um bebê pode ter fome a cada 2 horas nos primeiros 2 meses e é muito importante para o desenvolvimento emocional deste bebê que ele seja alimentado de 2 em 2 horas e não de 3 em 3 horas. Se esta extensão de horários ocorrer, para este bebê, a experiência da amamentação torna-se um desencontro. O bebê não sabe reconhecer que tem fome. Ele sente algo que não compreende e se não é atendido cai numa sensação de angústia forte (isso serve para desencontros repetitivos durante meses). Isso serve para o sono e outras necessidades dos bebês.

Outro exemplo é quando uma pessoa muito aflita cuida do bebê. Este sente toda aflição do cuidador. É como se esta aflição passasse para seu corpo. O bebê, que precisa de uma experiência calma, recebe uma carga grande de aflição. Além de não estar preparado para receber, não compreende o que está acontecendo. Neste caso, o corpo energético em desarmonia afetou a experiência e o corpo mental do bebê.
Quando falamos destas experiências de desencontros que provocam danos no desenvolvimento emocional estamos nos referindo a uma somatória de experiências desta ordem durante meses. No dia-a-dia, desencontros acontecem, até porque ninguém é perfeito e consegue acertar em tudo, mas se na maioria houver encontro, os desencontros não deixarão marcas profundas.

Uma situação que bem ilustra esta aflição é a da mãe insegura que toda vez que o bebê chora lhe dá leite. Quando ele está com fome, a amamentação é o caminho correto a se seguir. Mas, se ele tem cólica, frio ou sono e ao longo do tempo recebe leite e mais leite ao invés de ter suas necessidades reais sanadas, isso acarretará num sentimento de desencontro, pois suas necessidades não foram acolhidas e cuidadas da maneira que o bebê precisava.

Normalmente pais aflitos receberam cuidados de pais aflitos. Reagimos frente aos nossos referenciais: tudo o que aprendemos e incorporamos a partir do que recebemos na relação com os cuidadores, seja consciente ou não. Se o ambiente foi calmo, a tendência é conseguirmos agir de forma calma, mas se foi tenso, tumultuado, aflitivo, reagiremos da mesma forma. Assim vai se construindo o corpo mental do indivíduo.

Também existem bebês com pouca tolerância as falhas ambientais e experiências hostis e existem bebês com muita tolerância. Cada ser é único e precisa ser compreendido na sua forma de existência. A intuição dos pais é a maior ferramenta para o sucesso desta jornada. Caso os pais precisem, é importante buscar ajuda, tanto familiar como profissional.

No próximo post continuarei a abodar o desenvolvimento emocional.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286
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