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Esses três tópicos, ética, respeito e solidariedade são aprendidos através das relações e educação que recebemos de nossos pais, cuidadores, professores e até mesmo outras pessoas que podem ter influência significativa em nossa formação de caráter. Mas, ainda a família é responsável pela maioria das experiências emocionais que os filhos vivenciam e são essas experiências que irão marcar as ações futuras destas crianças quando adultas.

Temos presenciado inúmeros episódios nos quais esses três ítens fundamentais, que contribuem para a formação da base de uma civilização mais evoluida, mais justa, menos desrespeitosa e até mesmo violenta, estão em falta.

O tal “jeitinho brasileiro” viola esses elementos. Parece inocente furar a fila no trânsito, no supermercado, em shows, peça de teatro ou cinema. Mais inocente ainda parar em fila dupla para esperar a criança sair da escola. Uma mentirinha também parece inocente. E assim podemos trazer uma lista infindável de ações que de inocentes não têm nada. Ações que violam esse tripé sustentador de seres humanos mais conscientes no seu processo de existir no mundo e se relacionar com todos os seres humanos, animais, vegetais e com o próprio planeta.

Nesta semana assisti novamente o filme Um Sonho Possível (The Blind Side) – foto. A protagonista rica e bem sucedida, atuada por Sandra Bullock, adota um rapaz adulto negro. Coloca-o em sua casa como se já fosse de sua família e acaba por mudar a história daquele rapaz que havia recebido quase nada da vida. A família fanática por futebol coloca-o no time da escola, mas este se mostra inofencivo demais para jogar futebol americano. O técnico não conseguia entender o porque do garoto não demonstrar agressividade, tendo em vista sua história de vida: ele havia crescido em instituições e na rua. Mas, ele também tinha em sua história uma marca que o protegeu de todas as situações difíceis.

Sua mãe, uma mulher simples e sofrida, viciada em drogas, o ensinou a fechar os olhos para não ver o ambiente complicado que o assolava e aquele garoto aprendeu a fazer isso com todas as situações difíceis que passou. Claro que nem sempre isso é possível e também não estou dizendo que agressividade é ruim. A agressividade como força de vida é boa, mas como patologia reativa ao sofrimento emocional, não.

Um outro ponto que quero abordar deste filme é o fato dos filhos do casal terem aceitado com naturalidade a entrada do rapaz em suas vidas, inclusive estreitando relações afetivas com o mesmo. Isso só foi possível porque os pais lidaram com naturalidade tanto em casa como com a sociedade em si. Numa das falas com suas colegas, Sandra Bullock responde ao comentário da amiga que disse que ela havia mudado a vida do rapaz, dizendo: “não, ele é que mudou a minha”.

Trouxe esse filme como exemplo para mostrar que intervenções podem ocorrer na formação da personalidade das pessoas. Podemos passar bons exemplos e ensinar amor, solidariedade, respeito ou podemos ensinar o oposto. Não estou desconsiderando as dificuldades emocionais das pessoas que cuidam de outras pessoas, no caso de crianças. Mas, é importante apontar caminhos, pois uma sociedade sem ética gera indivíduos que ficam perdidos, sem contorno, sem lugar e sem direção. Pode virar uma “terra sem lei”, onde voltam a imperar as leis dos instintos, “do olho por olho dente por dente”.

No consultório acompanho crianças e as vezes ajudo na lição de casa com intuito terapêutico. Numa das sessões estávamos lendo um texto sobre cidadania. A menina de 8 anos tentava entender como poderia ser seu papel de cidadã mesmo sendo criança. O texto abordava respeito com a natureza , com os colegas, ações que envolviam o cuidado e etc. Vamos supor que esta mesma criança, que aprendeu sobre respeito na escola, tenha uma experiência totalmente diferente em casa, onde seus pais brigam entre si sem o menor respeito, tratam seus filhos também da mesma forma. Provavelmente o texto da escola ficará perdido em seus registros.

Para ensinarmos ética, respeito e solidariedade devemos vivê-los.

Ficamos maravilhados com os japoneses que durante a Copa no Brasil recolheram seus próprios lixos dos estádios, mas somos incapazes de recolher o lixo ao nosso redor. Outro dia no programa do Fantástico, a emissora exibiu uma matéria na qual crianças japonesas eram ensinadas a limpar a escola, cozinhar para os colegas e arrumar a sala de aula para a próxima turma.

Para desenvolver compaixão, solidariedade, precisamos nos colocar no lugar do outro, precisamos ter a noção de que nossas atitudes podem machucar ou prejudicar o próximo. A educação não pode ser ensinada somente por informação. A educação precisa ser vivida e transmitida nas relações.

Abrir mão dos desejos mais instintivos requer sofisticação no desenvolvimento emocional. Isso significa que aquisições emocionais devem acontecer ao longo do desenvolvimento para que a a experiência emocional seja mais madura. E isso requer o outro.

Uma sociedade que perdeu seus valores éticos, perdeu a direção.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286 / 998509074
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