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A traição é uma ação inerente a condição de ser humano ou é uma escolha frente ao desejo ou necessidade, seja sexual, autoafirmação, negação , poder ou qualquer outra ordem? Afinal, por que traímos?

Primeiramente porque ser humano é muito mais complexo do que se imagina. Aprendemos como devemos ser ou agir desde pequenos frente aos padrões herdados de um núcleo familiar ou cultura coletiva, sem aprendermos quem realmente somos e nossa capacidade de reagir e de agir.

Reação e ação não são sinônimos. Uma reação contém muitos elementos instintivos e inconscientes. Já a ação, compreendida como um ato final, deve ser consciente. Uma ação requer reflexão. Devo ou não devo fazer. Por que sim ou não e para que. Quais elementos estão por trás do desejo de agir?
Dito isto, infelizmente devo dizer que a maioria de nossas ações são reações. Acreditamos serem ações, pois aprendemos assim. A re-ação, não deixa de ser uma ação, mas como expliquei, é inconsciente. Isto significa que não nos conhecemos. Se não nos conhecemos, não conhecemos o mundo. Achamos que conhecemos. Temos uma visão superficial ou até mesmo distorcida da vida interna e externa.

E onde entra a traição?

Vou colocar um elemento a mais para vocês refletirem: a maior traição é conosco.
Traímos a nós mesmos em primeiro lugar por não compreendermos nossas reais necessidades.
Temos necessidades fisiológicas, afetivas e espirituais. Neste último ponto englobo questões mais profundas da alma, da essência, da busca de um significado maior da existência humana.

Existem crenças que colaboram e até incentivam a traição. Culturas machistas afirmam que o homem trai a parceira ou parceiro por questões fisiológicas. Uma pessoa pode trair a outra por necessidade de poder. Quantas histórias já não ouvimos sobre “passar a perna” no outro ou sobre “o mundo ser dos espertos”?

'Traição a Jesus', de Giovanni Canavesio

‘Traição a Jesus’, de Giovanni Canavesio

Na história católica, Judas traiu Cristo. Traímos nossos sonhos, nossa vocação, nossa verdade interior. E o que seria essa verdade?

Quando paramos para refletir sobre qualquer ponto, temos dois caminhos: um aponta para o desejo, o outro para uma sabedoria interna. Normalmente as pessoas dizem “lá no fundo eu sei que não deveria mas tem algo que me impulsiona”.

O “lá no fundo” é a nossa sabedoria. Por que não a escutamos então? O desejo representa as necessidades. Essas são mais profundas, sutis e estão ligas ao nosso passado, apesar de se apresentarem também no presente e no futuro. Se não recebemos afeto adequado ou incentivo ou apoio, teremos uma falta que reverberará por toda nossa vida e serão confundidas pelo desejo.

E aí entra o tal ciclo repetitivo. Repetimos experiências para tentar sanar o que faltou. Só que com pouco conhecimento sobre nossas necessidades, projetamos no desejo de fatos, objetos ou relações externas a ilusão de que receberemos o que nos faltou. Pode ser no cargo que dê visibilidade, na mulher que representa um modelo de beleza atraente ou no homem bem sucedido, no carro importado, na roupa de grife, no relacionamento amoroso e etc. Por isso, a sabedoria interna fica distante. Devemos sim buscar aquilo que nos faltou, senão sempre a falta falará mais alto.
Porém, se comprarmos o carro para sanar a falta de reconhecimento que não nos veio no passado, estamos repetindo a falta e um equívoco. Por isso a necessidade entra em cena e sentimos o desejo de mais conquistas ou sexo ou poder ou experiências de adrenalina, perigo e etc.

Aprendemos a projetar a traição nos outros, só que não aprendemos que, por questões emocionais, nos traímos muitas vezes. Traímos nossas reais necessidades. Quantas mentiras contamos a nós mesmos para justificar tal comportamento, seja por reação ou paralisação?

Conheço inúmeras pessoas que possuem raiva do mundo e dos outros e reagem constantemente sem compreender que foram feridas quando pequenas no seu direito mais sagrado que é o de receber amor, carinho, apoio. Só que elas inconscientemente continuam no ciclo de não buscar ações efetivas que realmente curem suas feridas, muito pelo contrário, continuam na falta e culpam o externo. Não percebem que estão cometendo a mesma traição que julgam terem recebido anterorimente.

Sugiro à vocês que comecem a refletir sobre suas supostas ações. Tentem fazer uma correlação com os sentimentos que vem na ação e em seguida busquem no passado a origem de tais sentimentos. A reflexão permite o início da jornada do autoconhecimento, que neste texto refere-se ao porque traímos a nós e aos outros.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista
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