mid-adult woman laying on the floor and working on a laptop

A procrastinação é o adiantamento de uma ação. A comediante e apresentadora Ellen Degeneres, em um talk show, iria falar sobre esse assunto e por quase uma hora falou sobre outros temas, numa brincadeira de associações livres, levando o púbico a rir, mas adiando até o final o objetivo da suposta palestra.

Por que parece mais fácil ou menos custoso realizar ações no âmbito profissional do que pessoal? O que nos leva a adiar ações como iniciar uma dieta, mudar hábitos alimentares, melhorar a qualidade de vida, mudar a rotina estressante familiar ou do dia-a-dia?

No profissional, muitas vezes, a pressão acaba sendo o elemento que impulsiona a ação. Também as metas profissionais estão ligadas à ações mais concretas, que passam por um raciocínio lógico, aprendido na faculdade ou na experiência do próprio trabalho, facilitando desta maneira a execução do ato. Mas, dependendo do estado emocional do profissional, a procrastinação pode ocorrer e o estresse aumenta.

A pessoa, na tentativa de aliviar qualquer mal estar provocado pela necessidade de realizar uma ação, que para ela é muito difícil, começa a empurrar ou a se convencer que mais tarde ou num outro momento terá condições mentais ou psicológicas para iniciar a tarefa. Só que quanto mais adia, maior o estresse e a cobrança e maior ainda se torna a barreira a ser superada.

Essa luta interna que requer a união de forças vitais para conseguirmos realizar tarefas, sair do mundo do prazer para o mundo da realidade, que nem sempre é tão prazeroso, nos acompanha desde cedo e dependendo das experiências que recebemos de nossos cuidadores e das demais experiências que vem do mundo social, podemos ter mais facilidade ou não para superar os obstáculos internos e externos.

Para a psicanálise, adiar ações (procrastinação) é uma defesa emocional que tem origem na infância como forma de proteção, mas que leva a uma auto sabotagem. Uma pessoa que foi criada por outras pessoas muito autoritárias desenvolve um mecanismo de proteção contra o sofrimento e o medo.

Uma criança tende a se adaptar ao modelo opressor na tentativa de ser assertivo e receber menos punições. Ela passa a reprimir seus impulsos, desejos e sonhos por medo da consequencia negativa que vem do outro. Como isso não muda o modo de agir do opressor, esta criança vai perdendo a força, o potencial de ação e a confiança no outro e nela própria, o que a longo prazo causa dificuldades na realização das tarefas.

Precisamos de força interna como um combustível que ativa o motor do carro. Essa força está diretamente ligada à confiança. Se recebemos um bom cuidado emocional na infância, desenvolvemos confiança em nós, no mundo e a autoestima se constrói de maneira eficiente. Caso isso não ocorra, muitas dificuldades emocionais estarão presentes em diversos setores da vida.

O desânimo também pode estar relacionado a perda da confiança em si mesmo e no mundo. Temos uma tendência muito grande de adaptação. Isso pode ser muito bom, porém quando esta adaptação ocorre em experiências dolorosas e difíceis, ficamos presos num funcionamento repetitivo e patológico.

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Apesar da procrastinação ter origem na infância e ser um modo de proteção ela é ineficaz

Pessoas que funcionam neste modelo tendem a usar os acontecimentos em sua vidas ou no meio externo para justificar esse comportamento. A falta de dinheiro, a corrupção no país, o jeito rude do parceiro ou do chefe, a violência etc. Isso ocorre porque todos esses eventos, que por si só geram sofrimento, também ativam memórias do passado, as quais estão carregadas de sofrimento e que foram “suprimidas”, por isso inconscientes, mas que continuam agindo no campo emocional provocando sintomas, sentimentos e reações.

Para quebrar com esse ciclo e modo de adiar as ações como sintoma recorrente é necessário identificar e cuidar dos aspectos psicológicos, conscientes e inconscientes, que levam a este modo de funcionar.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, especialização na UNIFESP
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