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A rotina pode tornar um relacionamento superficial e ser um dos fatores impeditivos para encontros mais profundos. A correria do dia a dia, o cansaço pelo excesso de trabalho, trânsito, desgaste físico e emocional são argumentos muito usados para justificar a superficialidade nos relacionamentos em geral.

De tempos em tempos, as relações duradouras podem passar por fases mais difíceis, nas quais, sem uma base sólida emocional de ambos os parceiros, a superação das dificuldades, das diferenças e a transformação das mesmas podem não ocorrer.

Muitos casais não dialogam sobre os problemas ou sobre o que lhes incomoda no outro ou mesmo no curso do relacionamento, na tentativa ilusória de manter a experiência boa. Existem pessoas que, por medo de estragar a relação, evitam tocar no problema para que brigas ou rompimentos não ocorram. Esses medos vêm das vivências do passado e que se imprimem no presente e no futuro. Podem ter presenciado seus pais brigarem demais e se separarem ou visto os mesmos passarem a vida infelizes um com o outro. Podem também ter receio de o parceiro não compreender seu pedido ou reinvindicações e isto gerar mais sofrimento.

Em todos os casos há a tentativa de evitar e não repetir as experiências dolorosas do passado.
O perigo disto é desenvolver um relacionamento superficial, distante, que aos olhos dos outros e mesmo do próprio casal, parece estar tudo caminhando a mil maravilhas. Se isso se mantém a médio ou longo prazo, danos irão acontecer em vários níveis da vida. O casal pode passar por crises financeiras, um dos parceiros pode vir a desenvolver alguma doença física ou emocional, se filhos existirem, estes podem desenvolver sintomas, que aparentemente parecem individuais, mas no fundo têm relação com o funcionamento familiar.

A superficialidade na vida e nos relacionamentos está diretamente relacionada com as experiências que os indivíduos têm ao longo de suas vidas.

Essas experiências também advêm de tudo o que recebemos emocionalmente, principalmente dos nossos pais, posteriormente de pessoas mais significativas. Nessa bagagem emocional encontram-se experiências boas de tolerância, conversas, flexibilidade, paciência e solução dos problemas.

Pessoas que tiveram relacionamentos mais conturbados com seus pais na infância, seja pelo excesso de repressão, rigidez, punições físicas e/ou verbais, falta de cuidado emocional, cobranças, terão mais dificuldade em desenvolver um aprofundamento nas vivências e trocas com as pessoas e situações, pois terão medo de revivê-las através do outro. Como defesa então, podem manter-se mais distantes. É um controle ilusório de que o outro não irá machucá-lo ou decepcioná-lo.

O que existe de fato são as experiências do passado que se sobrepõem às do presente e do futuro, levando a pessoa a acreditar que o perigo existe constantemente.

Existem casais que brigam bastante ou cobram o outro excessivamente com o intuito, na maioria das vezes inconsciente, de reparar os danos do passado. Infelizmente isso não irá ocorrer, pelo contrário, mais sofrimento será gerado. Mais brigas ou afastamentos, até mesmo rompimentos.

Tenho presenciado muitas histórias de casais que chegaram a um ponto da relação, na qual ambos não veem mais caminhos e a saída acaba por ser a separação. Os discursos são carregados de raiva pelo outro não conseguir corresponder às expectativas que estavam em jogo e muitas vezes a pessoa ou o casal se torna frio, duro e dá a impressão de que as relações são totalmente descartáveis.

O que as pessoas gostariam que fosse descartável é o medo, o sofrimento e principalmente as experiências passadas que parecem se repetir no presente. Só que descartam a relação ou aquela pessoa.

Repetindo erros

Sem resolver os conflitos internos, a repetição irá ocorrer em outros relacionamentos, pois passamos a vida na tentativa de reparar os danos causados em nosso emocional desde que nascemos.
O que gera esse ciclo é a necessidade de evoluirmos, de superarmos e transcendermos as crenças, sentimentos, para que possamos enxergar o mundo interno e externo com mais profundidade e amplitude.

O que impede a resolução desses conflitos é a falta de conhecimento e direcionamento do mundo interno. A grande miopia dos seres humanos é colocar tudo no externo sem fazer a conexão e correlação com o interno.

A superficialidade nos relacionamentos e na vida é um sintoma dessa falta de conexão entre a mente, o corpo e as experiências do passado e do presente associada aos medos e anseios do futuro.

Comece a observar os sentimentos envolvidos nas ações, nas brigas, nas escolhas, nos pensamentos. Isto pode ser um início para a sua compreensão dos diversos elementos inconscientes que estão presentes e que influenciam seu agir o tempo todo.

Casais que estão passando por dificuldades e que não estão encontrando saídas devem procurar ajuda para um esclarecimento mais profundo, pois desta maneira, conseguirão resolver os conflitos de forma verdadeira e com muito menos sofrimento.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista
11 5052 9286 / 99850 9074