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Vou abordar dois tipos de solidão neste artigo. Há a solidão saudável que possibilita uma sensação gostosa de estar consigo mesmo e há a solidão sintomática, fruto de desarmonia interna e externa, que gera sofrimento.

Quando a solidão se torna frequente e dolorosa ela é sintomática. Podemos estar rodeados de pessoas e ainda assim nos sentimos só. Nada é suficiente para preencher o vazio que a solidão representa.

Muito do que sentimos hoje e que repercute em nossas escolhas vem da infância. Se não somos compreendidos pelos adultos, quando crianças, podemos chorar, ficar nervosos, nos calar. Quando choramos ou ficamos nervosos, ainda estamos acreditando que em algum momento alguém vai nos compreender. Aqui há a esperança.

Porém, se quando crianças aprendemos a nos calar e aceitar, respondendo apenas de acordo com o que os outros esperam, vamos perdendo a esperança e começa a vir um sentimento de tristeza e de solidão profundos. Esta solidão surge exatamente por nos sentirmos sozinhos no mundo. Fica o registro dentro de nós de que ninguém nos compreendeu adequadamente, portanto ninguém nos ajudou da maneira como precisávamos. E isso pode perpetuar a vida toda. Quantas vezes não nos sentimos assim ou escutamos pessoas dizerem: ninguém me entende!

Algumas pessoas vão desenvolver fortes defesas internas para amenizar essa dor e poderão tornar-se adultos muito funcionais e bem sucedidos. Por fora parecem que dão conta do mundo, mas por dentro, guardam um sofrimento e um vazio enorme. Um dia as defesas começam a não ser tão eficazes e as dores aumentam. Podem vir através de uma situação financeira, familiar, no trabalho, nas relações com conjuge ou filhos etc. Com isso, volta o sentimento terrível de solidão, de medo, de fragilidade e a pessoa pode ficar extremamente estressada, irritada, nervosa, assustada, ansiosa ou deprimida.

Outras podem passar a vida sofrendo, sentindo-se injustiçadas. Sob esta ótica são mesmo, pois ao não receberem os cuidados emocionais adequados, foram de fato injustiçadas. Mas, não vai resolver ficar preso a esta falta.

A solidão sintomática pode se apresentar de várias maneiras. O indivíduo pode se isolar a ponto de não confiar no amor e nas relações afetivas. No trabalho pode se tornar centralizador, pois não confia que os outros darão conta do recado. Se tiver filhos poderá não compreendê-los em suas necessidades psicológicas, pois nunca recebeu esse tipo de compreensão, com isso poderá tornar-se duro, exigente ou ficar muito magoado com a criança caso ela apresente comportamentos mais arredios. Pode passar a vida na tentativa de encontrar alguém que a ame e a compreenda como ela precisa, mas a cada decepção amorosa, além de sofrer demasiadamente, concluirá que realmente o amor não existe. Pode exigir dos outros muita atenção, pois nada é suficiente, nada a preenche nesta falta.

Como não se sentir mais só

A internet tem possibilitado em algum nível uma maior conexão com as pessoas. Precisamos nos conectar com os outros para nos conectar com nós mesmos. Pessoas que não podem ficar sem o celular um minuto sequer podem ter muito medo de se sentirem sozinhas. É um sentimento de desamparo forte e assustador. Estar conectado, nem que seja, virtualmente é melhor do que ficar no vazio. Só que não resolverá a causa, por isso se torna um vício.

Já a outra solidão, a que mencionei como saudável, se distingue muito da sintomática. Ela só pode acontecer quando a pessoa tem estrutura interna boa, quando não há uma falta grande, pois só assim ela aguentará a experiência de estar só com ela mesma. A meditação propõe essa vivência: alcançar a paz, calma, um silêncio interno. A pessoa se desliga do externo, mas se liga profundamente ao interno. Se o interno é falho ou é carregado de sentimentos difíceis, fica quase que impossível entrar em contato, pois além de muito doloroso, torna-se assustador, exatamente porque a pessoa não sabe como lidar, não sabe o que fazer com esses sentimentos. Nunca ninguém a ensinou a se acalmar da melhor maneira emocional.

O que realmente nos faz sentir felizes, preenchidos por dentro, são as experiências boas que temos na vida. Essas experiências são de encontros verdadeiros e elas possibilitam a construção de bons recursos internos. Quando somos compreendidos, acalmados, orientados dentro desta compreensão, nosso desenvolvimento emocional ocorre de maneira mais saudável e vamos guardando possibilidades dentro de nós que nos ajudarão a enfrentar as situações do presente e do futuro, com a esperança de que, além de darmos conta, poderemos contar com outras pessoas, caso necessário.

A solidão sintomática significa que a pessoa se sente só no mundo, desconectada dos outros e dela mesma. A saudável, significa que ela tem uma boa conexão consigo, com seu mundo interno. Podemos também oscilar entre uma e outra, dependendo do momento em que nos encontramos e também das experiências afetivas que tivemos.

O que realmente cura as faltas e as doresda solidão é o processo de autoconhecimento e também de análise. Na análise, além de aprender a se conhecer no funcionamento emocional, a pessoa poderá receber de maneira adequada o que lhe faltou.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista
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